Talvez falemos em rascunho.
THE DRAFT LETTER #01 || Notes on communication, behaviour and being human
Porque é tão difícil dizer exatamente aquilo que pensamos?
Porque existe tantas vezes uma distância entre a intenção e a expressão?
Estas são perguntas que me têm surgido com frequência.
Estamos em grupo, com maior ou menor formalidade, queremos partilhar a nossa visão ou opinião sobre um tema que está a ser discutido. Seja porque nos perguntam ou não, começamos a falar, a expressar o que estávamos a pensar e é quando vamos percebendo. Às vezes imediatamente, às vezes ao fim do que parece uma dissertação de mestrado, percebemos que o que estamos a dizer não está a alinhado com o que tínhamos na ideia.
O que é bastante impressionante, porque quando o discurso passou na nossa mente, era um script integral, com as devidas pausas incluídas, e profundamente eloquente.
Acontece num outro formato também. Que é quando a nossa opinião é verbalizada mais rápido do que a nossa mente organiza. Neste modo, identificamos que o que estamos a dizer não está exatamente como queríamos, normalmente pelas reações dos outros. As nossas pausas são acompanhadas de silencio ou de intervenções desalinhadas. Há quem se ausente e há os olhares fixos empenhados em dar sentido ao nosso discurso.
A verdade é que o que procuramos não é apenas falar. É sermos compreendidos. É encontrar significado para que exista troca.
Entre o que falamos e o que é recebido, há a distância entre a intenção e a expressão, e há ainda as perceções dos outros condicionadas pelas suas próprias perspetivas.
Esta é uma realidade individual e coletiva. Molda relações, equipas, culturas e marcas.
Uma marca acredita que está a dizer uma coisa. As pessoas recebem outra. Uma organização define valores. Os comportamentos observados contam outra história. Uma campanha pretende transmitir proximidade. O público percebe oportunismo. Uma empresa fala de confiança. Os clientes experimentam burocracia.
A comunicação não falha apenas porque escolhemos palavras erradas. Falha porque assumimos que a intenção é visível.
E talvez seja precisamente aí que reside o desafio. Entre aquilo que pensamos e aquilo que dizemos. Entre aquilo que pretendemos expressar e aquilo que os outros compreendem. Entre a nossa experiência e a experiência dos outros. A comunicação acontece nesse espaço. Não como transferência de significado, mas como a sua negociação.
Neste universo humano de comunicação, em que nos manifestamos pela expressão, falar é só um elemento. Talvez a maior parte do que dizemos seja uma aproximação imperfeita ao que realmente pensamos.Talvez falemos em rascunho.