The Draft Letter #02
Notes on communication, behaviour and being human
A expressão é mundial
Antes de comunicarmos, expressamo-nos.
Em tempos de mundial, é a expressão que torna mais visível algo fundamental: a nossa necessidade de conexão, de vínculo, de relação com os outros. Dentro ou fora de campo, há quem seja mais expressivo. Há quem seja mais reservado. Mas todos se expressam. Pelo olhar. Pela energia. Pelo corpo. Pelo gesto. Pelo entusiasmo. Pelo silêncio. É neste palco que construímos vínculos. E neles, encontramos pertença.
Quando observamos o Cristiano Ronaldo durante este Mundial, isso é intuitivo. Todos reconhecemos a grande pressão e expectativa que rodeia o capitão da Seleção. Pois bem, depois do primeiro jogo contra o Congo, a Imprensa teceu duras críticas. Junto com a imprensa, acumulam-se comentários, reações e conversas.
Figuras públicas carregam expectativas que dificilmente pertencem apenas a elas. E quando essas expectativas não são cumpridas, multiplicam-se interpretações, críticas e narrativas.
No jogo seguinte, contra o Uzbequistão, Ronaldo marca dois golos. A equipa como um todo brilha. E aqui, vemos duas reações muito concretas do Cristiano. Uma em entrevista pós-jogo, numa linguagem escolhida e ponderada, confessa que foi uma semana dura, ter que lidar com as críticas, mas que estava habituado e que se mantinham coesos, como equipa, o que permitiu um treino focado e um jogo incrível.
A outra reação, ainda em campo, depois de marcar, vemos um corpo que cresce, braços assertivos e uma mensagem labial ‘I’m Back’. Mensagem também presente na celebração espontânea do seu primeiro golo, numa expressão facial carregada de uma emoção reativa e de assertividade.
Antes da entrevista, antes das palavras escolhidas, antes da fala, foi o corpo. Um corpo que cresce. Braços posicionados. Um rosto carregado de emoção. Um "I'm back" dito antes de ser dito. E milhões de pessoas compreenderam de imediato o significado. Força da expressão. Força não apenas no que comunica, mas no que desperta. Assistimos a milhões de pessoas a vibrarem com ele, em sincronia de emoção. Apoiaram e aplaudiram. Escreveram manifestos de gratidão e legado.
Quando alguém se expressa de forma genuína, criam-se espaços de identificação. As pessoas aproximam-se. Reconhecem-se. Projetam-se. Respondem. Criam comunidade.
É um facto que a linguagem organiza o significado. Mas quando a expressão nasce antes da linguagem, talvez seja ela que realmente cria vínculo. E talvez seja precisamente aí que nos reconhecemos uns aos outros.