A (des)ilusão do conhecimento

THE DRAFT LETTER #03 || Notes on communication, behaviour and being human

“There’s a difference between knowing the path and walking the path” - Morpheus em The Matrix

O dia dois de qualquer atividade ou ação, repetida ou familiar, traz sempre desafios especiais. No mês passado fiz o meu já habitual Retiro de Silêncio. Um Retiro que tem uma estrutura de agenda muito consistente todos os dias.

Dia um

Acordei às 5 horas da manhã, meditei uma hora, seguido de 2 horas da prática de Asthanga Mysore (yoga), antes do pequeno-almoço. Confiançuda, fui com tudo. ‘Conheço o meu corpo. Sei os meus limites.’ Tudo vai. O dia seguiu como habitualmente, meditação, yoga, silêncio.

Dia dois

O corpo dói. A mente grita ‘descansa’, ‘não me apetece’. O corpo dói em partes que já não doíam.... pensamentos borbulham, imagens do invisível já surgem. No final do dia anterior já tinha sentido os sinais. Tinha ficado enjoada e aquele sono, que subsiste em qualquer estado, já me tinha agarrado. Entre gritos da mente e fala do corpo, continuei, determinada. Agora convidada a ir mais devagar, mais atenta. Como se fosse a primeira vez.

A familiaridade e o conhecimento induzem com muita facilidade a uma confiança arrogante que nos leva a assumir que saber chega.

A verdade é que o saber e a manifestação do saber são diferentes.

O conhecimento é algo muito valioso, mas a sua aplicação e a consistente prática trazem diferentes níveis de entendimento que faz com o conhecimento evolua, cresça e se transforme. Muito rapidamente assumimos que aprendemos e agora somos detentores de conhecimento. E arquivamos na mente com a ilusória segurança que podemos recorrer a ele quando necessário. Com a mesma rapidez esquecemos que o corpo também sabe e comunica.

No dia um, eu tinha o conhecimento, ia aplicá-lo. Com uma presunção de domínio que se posiciona cega e surda. Ausente do momento, do corpo e do contexto. No dia dois o corpo falou, recordando que não é sobre o saber. É sobre a prática. É aqui que se cria entendimento.

O saber de forma isolada é sobre a utopia da perfeição.

A prática, o momento presente, convida ao entendimento e à clareza. E convida-nos à transformação e desenvolvimento. É na experiência que conseguimos observar e escutar, trazendo sempre o novo, porque cada momento é diferente. Fazer tudo como se fosse a primeira vez. Porque é sempre a primeira vez.

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