Pessoas, personagens e caixas

THE DRAFT LETTER #04 || Notes on communication, behaviour and being human

Uma das coisas da vida do dia-a-dia, da rotina de vida adulta, que considero profundamente desafiante é conciliar a minha vida pessoal (também chamada familiar) com a minha vida profissional. É de tal forma um fenómeno falado que corre o risco de quase ser um cliché.

Quando digo que é desafiante, não me refiro ao facto de ser difícil ter tempo para atender as exigências da minha vida familiar e desenvolver o meu trabalho com qualidade.

É desafiante porque não as consigo ver como coisas separadas. Olhando em retrospetiva, reconheço vários momentos em que me encontrava num contentor, atravessada por sensações de confusão, impotência e frustração. Agora estava a trabalhar, agora é hora de comer, agora é hora de cuidar da casa, assegurar tempo de qualidade com os meus, hora de sair com amigos, hora de ler.

Uma força mandatória de ter de alternar entre atividades, traz uma profunda sensação de dissonância, de desconexão, de ausência, de fragmento.

Criamos uma forma de vida para corresponder a um mundo dividido. Jack Kornfield, professor de meditação, disse numa conversa ‘ganhamos dinheiro indo trabalhar, cuidamos do corpo no ginásio, talvez cuidemos um pouco da mente na terapia, a parte das artes indo a um concerto, e do sagrado, indo à igreja, à sinagoga, à mesquita ou alguma dessas coisas. Está tudo em compartimentos.’   

Como se a pessoa que faz o trabalho, não fosse a mesma que sai com os amigos para se divertir. A que se senta à mesa com os filhos num dia que precisa confortar e dizer que nem sempre a vida corre como queremos. Vamos saltando entre contextos e, na ilusão de assegurar o sucesso e produtividade em cada um deles, adotamos um sistema de gavetas.  

Como se fosse possível! Utopicamente, acreditamos que compartimentar é uma capacidade sem consequências. No final do dia somos uma e a mesma pessoa.

A reunião vem para o jantar. A discussão da manhã entra numa apresentação. A preocupação com um filho senta-se connosco à secretária. A insegurança profissional vai connosco encontrar os amigos.

Saltamos entre contextos e tudo vai transbordando.  A rapidez desproporcional da fala e dos gestos. Silêncios descontextualizados. Estados de rendição involuntária. Deixamos de conseguir viver presentes. Levando a que por vezes mostremos duas facetas de nós que parecem duas pessoas distintas. Podemos ser a melhor pessoa num sítio e a pior noutro. Em qual somos nós? Em qual somos íntegros?

No outro dia falava sobre este tema com um amigo.  Da nossa tertúlia, uma coisa ficou clara, estas personas que vamos incorporando para navegar esta vida compartimentada têm prazo de validade. Não é sustentável viver com este esforço todo o tempo.

Nada é separado. O desafio não é encontrar equilíbrio entre a vida familiar e a vida profissional. É entender que são uma e a mesma vida. O que somos atravessa contextos. O que sentimos transborda. Tudo em nós se expressa. Tudo comunica. E, para onde quer que vamos, mesmo que por vezes coxos, estamos lá inteiros.

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