A crença é o limite

THE DRAFT LETTER #05 || Notes on communication, behaviour and expression

As nossas crenças funcionam como uma interpretação que fazemos da realidade, condicionando a forma como a vivemos.

Por esta altura da evolução da humanidade, apesar de o óbvio ser cada vez menos óbvio, sabemos que o ser humano, individual ou coletivamente, é regulado por um sistema de crenças. O que é incrível e fundamental para que possamos dar resposta a estados emocionais necessários à nossa sobrevivência como espécie: o sentido de pertença, o ser levado a sério e ter um propósito para a nossa existência. No entanto, como é característica da própria vida, as crenças são também um paradoxo.

O que nos sustém no caminho é também o que pode aprisionar-nos.

Quando falamos em crenças, falamos de algo estruturante para a vida como um todo. Mas parece-me importante refletir especificamente sobre a área do trabalho. Esta representa uma dimensão grande e grandiosa na vida, tanto do ponto de vista da nossa capacidade de nos sustentarmos economicamente, como na esfera imaterial, que dá forma ao papel e ao espaço que ocupamos no mundo. Os dois são absolutamente essenciais a uma existência humana e saudável.

O mundo enfrenta desafios estruturais crónicos que agravam a sensação de ‘se estar preso’ a um emprego ou a uma determinada condição laboral. Como distinguimos os limites que a realidade nos impõe, daqueles que nós próprios construímos?

Nas últimas semanas, foram inúmeras as conversas que tive com pessoas que sentem necessidade de mudar de emprego. Em alguns casos, com oportunidades de mudança a bater à porta, decidem permanecer numa situação que já consideram intolerável. Nessas trocas, o que mais me impressionou não foi o medo da mudança, mas a convicção com que apresentavam as razões para não mudar. Argumentos como, ‘não posso mudar com esta idade’, ‘será que consigo?’, ‘Estarei a dar um passo para trás?’, ‘O que vão pensar?’

Vemos a realidade de forma parcial, à luz das nossas próprias crenças, como um espelho. Todas estas questões que nos bloqueiam e nos aprisionam em situações que nos são prejudiciais existem a partir do nosso sistema de crenças: Não ser bom o suficiente; Há um prazo para a mudança; O desconhecido é perigoso, quase letal.

Existem condições reais que limitam as nossas escolhas. Mas existem também crenças que estreitam aquilo que conseguimos imaginar como possível. E, muitas vezes, ambas coexistem, tornando difícil perceber onde termina uma e começa a outra.

Não tem de ser assim. A verdade é que estas crenças que nos limitam andam a par com outras tantas que nos libertam. Há momentos que são sobre questionar as certezas que nos habitam, invertê-las e assim, renová-las.

Às vezes, aquilo que acreditamos ser um limite é apenas aquilo que aprendemos a não questionar.

Talvez nem todas as certezas que temos sejam tão certas assim. Algumas descrevem as condições em que vivemos. Outras descrevem aquilo que aprendemos a acreditar ser possível. E nem sempre sabemos distinguir umas das outras. Mas talvez seja precisamente nessa distinção que começa a possibilidade de mudança.

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Pessoas, personagens e caixas